E se o meu marido vê pornografia?

Por Kara Garis. Original aqui: What If My Husband Looks at Porn? 

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Foi um grande soco no estômago. Um soco nauseante e palpitante.

Eu me lembro de ficar olhando, confusa, a tela do computador. O que ele estava olhando, exatamente? Era o que eu achava que era?

E então, a lenta percepção.

E então, o inesperado soco no estômago.

Nós havíamos sentado juntos para ouvir sermões. Havíamos balançado a cabeça juntos, em uníssono, concordando. Sim, a pornografia destrói vidas. Sim, a pornografia objetifica as mulheres. Sim, sim, todas essas coisas, sim. Nós até discutimos isso ad nauseam.

Ele, é claro, havia “lutado” com a lascívia. Palavra-chave: lutado. O tempo verbal indica uma luta no passado, não mais uma luta. Eu estava bem. Estava segura. Havia me casado com um homem cristão. Não havia a necessidade de me preocupar com pensamentos de comparação ou inseguranças quanto ao meu corpo. Meu marido só tinha olhos para mim, e eu só sentia pena daquelas pobres mulheres cujos maridos não possuíam um autocontrole semelhante ao do meu marido.

Mas então tudo caiu naquela noite. Eu me lembro de tatear na sala, confusa pela luz suave que iluminava o ambiente àquela hora tão tarde — tentando entender por que ele parecia tão assustado — e então veio a explosão devastadora. E então a vergonha, a culpa, a autocondenação, a ira incontrolável, a incapacidade de me livrar do sentimento de traição.

Quem é essa pessoa com quem casei?

Mentiram para mim.

Pensamentos e dúvidas continuavam a vir. Eu me tornei uma mulher obsessiva. Meus olhos ficavam continuamente seguindo os dele. Nenhum lugar era seguro. A barista do Starbucks? Por que ela? A mulher no culto de domingo? Por que seus olhos demoravam nela? Não existe um só lugar seguro? Rapidamente ficou cansativo. O meu cérebro estava constantemente “ligado”.

E então veio o ataque das inseguranças pessoais. Por que existem tantas mulheres mais atraentes do que eu? Por que eu nunca consigo ficar magra o suficiente? Por que eu não sou morena o suficiente? Não era fenotipicamente possível, para mim, competir com os objetos da lascívia do meu marido. A genética nunca estava a meu favor. A incessante demanda ao meu marido e a necessidade de aprovação e afirmação constante estavam se tornando uma tensão em nosso relacionamento, até que tudo se resumiu a isso: Ele não feito para carregar o peso da minha idolatria. E eu não fui feita para carregar o peso da prevenção do seu pecado.

Seis verdades para esposas feridas

Através de muito aconselhamento, lágrimas, discussões e oração — um longo processo de cura e restauração cheia de graça em Cristo — Deus me mostrou várias verdades que podem servir a outras esposas como eu.

1. Você, querida mulher, não está em uma batalha contra o seu marido.

Você e o seu marido estão juntos em uma batalha contra o pecado. Satanás não gostaria de nada mais além de separar mais um vínculo de aliança. Permita-me ir além e afirmar que, sim, uma consequência infeliz do pecado é que ele fere o seu relacionamento. Lute contra isso com o sangue de Cristo. O perdão é oferecido a todos nós no caminho para restaurarmos a união marital.

Mas ao buscar a união, não estamos aceitando o pecado. Fique irada com o pecado. Atente para Jesus e a Sua ira — pela graça, torne a sua ira justa. Ire-se e não peque (Efésios 4.26). Procurem aconselhamento. Orem juntos. Encontrem uma comunidade bíblica na qual vocês possam confiar e ser vulneráveis. Lutem contra esse pecado juntos, e busquem ajuda de outros.

2. O pecado dele não é culpa do seu corpo.

Enquanto eu sou grata pelo incontável montante de literatura sobre casamento que defende o valor de ficar em forma para o seu marido, a verdade é que mesmo as mulheres mais atraentes e fisicamente formosas são vítimas da dor da infidelidade do marido. Não é culpa do seu corpo.

Irmã em Cristo, você irá envelhecer. Você está envelhecendo! Haverá épocas em que você não será capaz parecer com o que era no dia do seu casamento. Eu tive três filhos. Posso atestar isso pessoalmente. Temos de confiar em Deus com o nosso corpo de oito-semanas-após-o-parto. Temos de confiar nEle com o nosso corpo de recém-casada. E, embora eu não tenha experimentado isso pessoalmente ainda, temos de confiar nEle com o nosso corpo de idosa.

Claro, fique em forma para o seu marido o quanto puder. Mas não como seguro-lascívia para privá-lo de lidar com o coração e a raiz de sua própria luta com o pecado. O seu nível de beleza não é uma medida espiritual preventiva. É mais importante que você esteja suplicando a Deus em oração por seu marido, do que trabalhando a circunferência das suas coxas.

3. Aceite a soberania de Jesus, e confie o seu marido a Ele.

Essa luta juntos não é baseada no que você faz ou deixa de fazer. Jesus é Senhor sobre tudo, incluindo as lutas de seu marido. Somente a graça pode gerar a mudança permanente que o seu marido tão desesperadamente precisa. Não é você. Você não é o senhor dele. Você não é e nunca foi capaz de mudar a condição do coração de alguém. Para que o seu marido veja, algum dia, a feiúra da pornografia, ele deverá primeiro ver a beleza de Cristo como parte de sua experiência diária da vida cristã. E você não pode dar a ele essa visão espiritual. É um dom de Deus.

4. O seu pecado de amargura não é justificado.

O pecado sexual tem terríveis consequências. Ele destrói famílias. As pessoas perdem empregos por causa dele. Temos visto carreiras políticas se desfazerem por causa do pecado sexual. Pastores cometem suicídio por causa de sua queda no pecado sexual. Ele nunca deve ser considerado levemente.

Entretanto, a sua amargura e ressentimento também não devem ser considerados levemente (Efésios 4.31). Seja honesta com o seu marido, mas não o condene (Romanos 8.31).

5. Ele precisa de você e do seu perdão agora mais do que nunca.

Somos chamados a carregar os fardos uns dos outros e a perdoar assim como fomos perdoados (Colossenses 3.13), e não somente quando tais fardos forem convenientes a nós. Esses mandamentos são exatamente para momentos quando é difícil perdoar — quando os fardos do nosso marido resultam em nossa dor. Esses são os fardos que não podemos agravar ao abandonar o marido. Esses são os fardos que somos chamadas a ajudá-lo a carregar (Gálatas 6.2).

6. O seu marido não é o seu salvador, e você não é a salvadora dele.

Nós não somos capazes de salvar nosso marido mais do que nosso marido é capaz de nos salvar. Ambos somos criaturas necessitadas de graça. Estruturas de prestação de contas, regras e limites online possuem o seu lugar e hora. Mas, em última análise, resume-se a você sozinha nos momentos de tentação. É nesses momentos que você só pode confiar em Jesus para ajudá-la. E é nesses momentos que você só pode confiar em Jesus para ajudar o seu marido. Em um mundo cheio de tentações sexuais sedutoras, nada além do sangue de Jesus pode lavar o nosso pecado e nos libertar dele.

Siga em frente

Muito mais poderia ser dito sobre esse tópico, mas a questão fundamental é essa: todos somos pecadores depravados necessitados da graça; homens e mulheres que precisam andar por fé e não por vista (2 Coríntios 5.7). Não podemos expiar o nosso pecado. Felizmente, Jesus fez expiação por todo o nosso pecado. É somente a Sua obra em nós que pode nos ajudar a ser as pessoas que fomos chamadas a ser. É somente por Sua graça que nosso casamento tem qualquer esperança de durar até que a morte nos separe.

Então, siga em frente, querida amiga. Entregue o seu marido a Deus a cada dia. Acredite que Ele tem planos para o seu marido que incluem essa parte da sua história. E acredite no mesmo para você também.

Nota da autora: Esse artigo foi escrito e compartilhado online com a permissão e apoio do meu marido, na esperança mútua de que a nossa prontidão em falar irá ministrar graça e verdade às nossas irmã em Cristo que se encontram passando por essa mesma dor.

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03 de Março: aniversário de Ivonete Porto

Ainda na esteira do último post, um texto mais pessoal, uma declaração, como um presente, a minha esposa.

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Hoje é o aniversário da mais bela das filhas de Eva, como dia C. S. Lewis. A mulher escolhida por Deus para eu cuidar e liderar com amor sacrificial.

Sua espontaneidade me cativou – vozes, gestos, expressividade ao máximo. Exageros, às vezes. Mas alegria e vida em um olhar brilhante, pouco ou nada escondido sob mechas curtas de cabelo negro.

Sua inteligência me impressionou – articulação e posturas firmes, consistência teológica e interesse pelo saber. Amor em ajudar outros a conhecer, e dedicação intensa.

Seu estilo me alegrou. Simplicidade e despojamento. Coragem e iniciativa. Camisetas divertidas. All star. Mac (o notebook, não a maquiagem nem a lanchonete).

E o casamento nos tem proporcionado uma experiência de vida marcante e singular, com os problemas comuns aos relacionamentos humanos, mas uma dose especial de graça, que promove beleza, companheirismo, travessuras e sorrisos.

Neste dia nem tudo parece tão alegre, mas não interpretamos a realidade a partir das circunstâncias, e sim a partir das promessas e verdades do evangelho. Por isso é possível sorrir.

Você foi presenteada com a experiência de passar um aniversário fazendo algo muito mais significativo do que simplesmente recebendo elogios: seu presente foi curtir um aniversário servindo, tal qual a vida do nosso Mestre e Redentor.

Isto torna esta data ainda mais significativa.

Eu te amo por seu auxílio e caráter de serviço. Amo-te por submeter nossos projetos aos de Deus, e aceitar a Sua resposta. Amo-te por encontrar em você um exemplo.

Desejo a você um feliz aniversário – consciente da ação do Senhor. Que em mais um ano de vida a graça se manifeste poderosamente, aperfeiçoando o teu caráter e trabalhando o teu coração, para que você seja apresentada, com toda a igreja, como pura e imaculada, diante do Cordeiro.

Desejo que eu seja instrumento para a tua santificação, e que eu seja motivo da tua gratidão a Deus. Desejo ser um presente entre os que vais receber, um motivo de alegria, um canal da satisfação eterna em Jesus.

Parabéns, minha linda.

Tenha um grande dia.

Algumas razões para eu ser grato por minha esposa:

por ocasião de nosso aniversário de casamento

1 Sou grato por ela não ser tudo o que eu esperava de uma esposa. Deste modo Deus trata o meu coração, ajudando-me a corrigir minhas expectativas, e mostrando-me que o design dEle é bem melhor do que o meu. (Sem mencionar que, “de brinde”, em conhecê-la todos os dias eu ganho surpresas melhores do que as que eu esperava).

2 Sou grato por nossas diferenças de gosto, estilo, educação, etc. É assim que Deus me livra do meu individualismo e narcisismo, abrindo os meus olhos para o outro, e fazendo-me andar em um movimento para fora de mim e em direção à minha esposa. Deus trabalha o meu coração para que eu cresça em compreensão e amor prático, lidando com as diferenças. Deus quebra o meu egoísmo e idolatria, ajudando-me a servi-la em itens e momentos não interessantes para mim. Além disso, eu aprendo sobre novas perspectivas do mundo, e com os seus gostos e estilo eu percebo novas interpretações da realidade que enriquecem minha experiência.

3 Sou grato por seu jeito feminino e as manifestações de pecado envolvidas nele (Gn.3 – manipulação emocional, tentativa de controle, etc.). Deste modo Deus me desafia a um tipo de liderança no lar que resgate o ensino bíblico sobre a vocação do homem, e me encoraja a pensar e praticar formas criativas e amorosas de conduzir minha esposa com firmeza e sensibilidade. Deus me ensina a ser homem diante das nossas manifestações de pecado.

4 Sou grato por nossos conflitos.  Cada discussão e desentendimento é um exercício de amor sacrificial. Assim Deus me ensina a amar minha esposa como Jesus amou a Igreja e se entregou por ela (Ef.5). Nossos conflitos são dolorosos e difíceis, mas são grande oportunidades para compreensão mútua e crescimento no amor e na graça de Deus. Cada desentendimento é um momento para abrir mão das “vitórias e conquistas pessoais”, e buscar honrar a Deus por meio de servir o outro. Nem sempre servir significa permitir que o outro faça o que quiser, mas significa que o amor direciona as atitudes. Deus me ensina a pastorear a minha amada em nossos problemas, e demonstra os pecados e ídolos do meu coração – ensinando-me sobre o tanto que ainda preciso mudar para ser um marido adequado.

A gente se diverte!

5 Sou grato por sua doçura e feminilidade. Deus alimenta os meus olhos e coração ao me permitir ver e ouvir seus olhos, suas curvas, sua voz, seu perfume e seu jeito. O Senhor me preenche de amor e desejo de cuidar e guardar minha esposa de todas as maneiras possíveis. Deus me ensina que ela é filha dEle, e que eu sou Seu mordomo em cuidar dela. Agora mesmo ela está cheia de planos e idéias para celebrarmos o nosso aniversário de casamento logo mais. Ontem ela estava belíssima em um vestido longo e com o cabelo cortado. Seu jeito feminino me enriquece e alegra.

6 Sou grato por sua coragem e força. Mesmo sendo o vaso mais frágil (1 Pe.3.7), minha esposa possui coragem e força. Saiu de sua cidade para me acompanhar, abriu de seus empregos em Brasília para viver sob o meu sustento (mesmo que ela ainda trabalhe hoje), e prontificou-se a experimentar várias situações inteiramente novas em decorrência do casamento (mudança de igreja, de casa, de nome, etc., etc.). Sua força e coragem me desafiam a ser um homem melhor e mais digno da mulher que ela é.

7 Sou grato por nossa afinidade com a área teológica. Amo o fato de ela amar teologia e se envolver nisso tanto quanto eu. Sou profundamente agradecido por podermos assistir um filme e discutir sobre as cosmovisões nele apresentadas, ao mesmo tempo em que nos divertimos com as cenas mais bobas do mesmo. Agradeço a Deus porque o seu envolvimento com a área lhe faz compreender alguns dilemas do ministério pastoral e me apoiar nisso tudo com especial propriedade.

8 Sou grato por crescermos juntos em uma mentalidade voltada para o coração. Através do Centro de Pós-graduação Anrew Jumper (CPAJ) tivemos acesso a materiais e leituras que direcionaram a nossa perspectiva de Deus, dos homens e dos relacionamentos. Hoje crescemos juntos nessa mentalidade voltada para o coração, analisando nossos ídolos e motivações, e assim tendo uma prática matrimonial enriquecida, e que nos permite ajudar outras pessoas. Não bastam transformações comportamentais, ou ambientais, a dimensão do coração é mais profunda. Estamos crescendo nesse entendimento.

9 Sou grato por sua simplicidade. Minha esposa não exige muito para viver. É uma mulher simples e amável, que experimenta o contentamento sem muita dificuldade. Isso conforta o meu coração diante das possibilidades de prover para o lar, e diante dos nossos desafios orçamentários. Ao mesmo tempo, sua falta de exigências me desafia a lutar por crescimento, para oferecer a ela cada vez mais e melhor, para a glória de Deus, e para o seu cuidado.

10. Sou grato por nosso primeiro ano juntos. Muitas foram as experiências, encontros, desencontros, sorrisos, choros, palavras e silêncio. Deus nos supriu em cada momento. Deus recompensou o nosso amor – como o Rev. Wadislau diria. Deus alimentou o nosso amor. E Deus glorificou o Seu nome em nossa união. Aprendemos cada vez mais a viver com base na aliança, e isto é libertador.

Minha linda, sou grato por você. Grato principalmente a Deus, que dirige nosso caminho, e a você também.

Amo você, Ivonete Porto.

A Deus toda a glória.

“God is God, and God is good“

Já faz dois anos, mas parece que foi ontem. Eu assentada nas cadeiras do Andrew Jumper para assistir aulas, quase não prestei atenção no aluno que chegava um pouco atrasado. A desatenção do primeiro dia foi compensada no restante da semana, impressionada com sua inteligência e educação, dei espaço à amizade.
Amizade distante (aproximadamente 4.000 km) mas que foi aproximada com a teologia, a boa música, as camisetas engraçadas, as piadas, a internet e o serviço de telefonia móvel. Em poucos meses o garoto de São Luís estava sendo apresentado aos meus pais e à minha igreja como meu namorado.
Nesse período, que durou um pouco mais de um ano, a relação foi amadurecida com momentos de alegria, momentos de tristezas e crises e principalmente com a convicção de que é a graça de Deus que sustenta um relacionamento. A partir dessa certeza veio o noivado e hoje, o garoto de São Luis, enquanto escrevo esse texto, dorme calmamente ao meu lado na cama, pois já caminhamos para quatro meses de casados.
Nesta data em que ele comemora 26 anos, tenho motivos para agradecer a Deus por sua vida e por permitir que ele esteja ao meu lado. Sou abençoada e santificada com sua convivência e com a maneira como ele conduz o nosso lar. Deus é assim, mesmo sem merecermos ele nos agracia com coisas maravilhosas demais para nós. “God is God, and God is good“.

De quem é o espaço?

Estamos postando pouco, não? A ausência por aqui se dá pelo ritmo de início de casamento, aliado às outras atividades que desempenhamos – como o ministério na Igreja Presbiteriana do Renascença, e a plantação da Igreja Presbiteriana do Araçagy.

Até agora tudo tem caminhado bem. O maior desafio, de fato, é a organização do apartamento. O excesso de livros, os vários presentes para o lar (que recebemos de amigos e leitores!), e a pequena área do apê entram em conflito. E é aí que os testes começam.

Eu sempre prezei pelo meu espaço. Sem achar que eu exigia muito, queria apenas o meu cantinho em paz, para poder ler e escrever alguma coisa sem perturbação. Embora eu seja um pouco bagunceiro, certo nível de ordem era fundamental para que a concentração viesse, e a produção fosse possível.

E eis que me vejo casado, e com caixas e mais caixas de toalhas, pratos, potes, fôrmas, cabides, tapetes, livros, livros, livros e livros.

Dou uma olhada na bagagem. Passo os olhos pelo apartamento. Uma segunda encarada nas caixas.

Onde vai ficar esse negócio todo?

Aqui cabe uma digressão: o nosso apartamento [no qual eu morei sozinho por um ano e meio antes, e por isso já estava acostumado com certa rotina de coisas] possui algo em torno de 56 metros quadrados. Trata-se de uma pequena varanda que molha quando chove, uma sala, dois quartos, um banheiro e uma cozinha/área de serviço. Não há muito espaço.

Outra digressão: eu morei sozinho por todo o tempo mencionado acima, mas não havia comprado sequer um armário para guardar panelas e coisas do tipo. Montei umas prateleiras de plástico e me virei com aquilo (eu praticamente não cozinhava – apenas uma besteira de vez em quando).

As digressões acima são para demonstrar o ponto de que não havia espaço de sobra para as caixas, e nem uma cozinha organizada onde se pudesse guardar os potes-pratos-canecas-etc. Tudo deveria permanecer nas caixas, e ser guardado em algum lugar, até que comprássemos os móveis da cozinha.

A pergunta volta: Onde vai ficar esse negócio todo?

Quarto… não.
Sala… não.
Cozinha…não.
Escritório… escritório?

Era o lugar onde poderíamos guardar as coisas. E assim eu vi “o meu canto” se desfazer entre os meus dedos. O ambiente ficou tão cheio de caixas e aparente desordem, que se tornou difícil sentar em um ponto do quarto/escritório para estudar.

Obviamente isso gerou um desconforto, mas graças a Deus não houve discussões ou algo parecido por causa da “extinção do meu espaço”.

O fato é que a idéia do “meu espaço” deveria agora ser repensada. Passei a compartilhar a minha vida com alguém, e, mesmo que não sejamos obrigados a fazer tudo juntos, a perspectiva solitária-individualista sofre alterações.

Mais do que isso: se eu fechasse a compreensão da realidade apenas no incômodo que eu sentia, não perceberia como isso também era doloroso para a minha esposa. Não ter uma cozinha organizada, nem onde colocar os utensílios, não ter como tirar seus livros das caixas para consultá-los, e olhar todos os dias para um quarto bagunçado era algo tão agoniante para ela quanto para mim.

A cozinha redimida

Com a graça de Deus, suportamos belos dois meses nessa situação. Nesta semana recebemos os móveis da cozinha, que já foram montados, e hoje passamos pelo cansativo, porém agradável processo de abrir as caixas, tirar os materiais, organizá-los na cozinha, limpar o escritório, redistribuir as estantes e livros, e amontoar as caixas para levá-las ao lixo.

O que eu aprendo com tudo isso? Eis a lista:

1. O casamento envolve abrir mão de elementos que sempre foram comuns a nós. Estar com alguém no matrimônio, é se dispor a compartilhar a vida, e deixar de lado itens que faziam muito sentido na vida de solteiro, mas que agora precisam ser repensados. Quem entra no casamento sem tal disposição, dificilmente conseguirá preservar a união por muito tempo. Isso nos faz pensar sobre o mandamento bíblico de o homem se unir à sua mulher e se tornarem uma só carne. A idéia de união é bem forte, de modo que a forma “solteira” de pensar precisa ser abandonada.

2. Liderar em amor envolve considerar o outro mais do que a si. Efésios 5 e 1 Pedro 3 falam sobre a liderança do homem no casamento, e ambos descrevem um tipo de liderança que ama, respeita, e trata a mulher com dignidade e carinho, considerando-a a parte mais frágil. Em termos práticos, isso significa que as dificuldades surgidas no contexto do casamento não devem ser observadas apenas sob a minha ótica – o que me incomoda exclusivamente. É importante que eu perceba como as mesmas questões afetam a minha esposa, a fim de perceber que algumas de minhas reclamações e críticas têm um poder destruidor, em vez de construir qualquer coisa boa no casamento.

3. Alguns problemas dependem de fatores externos para serem resolvidos, e por isso levam tempo. Eu não poderia acusar a minha esposa pelas caixas no escritório. Não poderia levantar irado todos os dias porque estava sem um lugar adequado para os estudos. Precisava compreender a situação, e exercitar a paciência, sem ser preguiçoso. Os passos para a resolução do problema seriam: (1) pesquisar os móveis da cozinha (planejados, modulares, etc); (2) comprar os móveis da cozinha; (3) pesquisar os móveis do escritório; (4) comprar os móveis do escritório e (5) tendo chegado cada parte, reorganizar o espaço a partir da nova realidade. O escritório ainda não foi comprado, mas o problema foi solucionado, pois ao retirar as caixas, conseguimos espaço para colocar algumas prateleiras no escritório, organizar vários livros nelas, além de termos uma bela cozinha, recheada de utensílios. Fazemos o que nos cabe, e aguardamos o que virá de fora.

4. As qualidades necessárias para o altruísmo, a paciência, o amor, são obra da graça. Nada do que foi relatado acima teria acontecido se Jesus não decidisse nos abençoar com amor e paciência. Por isso, mais do que qualquer exercício para solucionar problemas, a oração, leitura bíblica, e vida com Deus é fundamental. Precisamos ter Jesus no centro de nosso casamento.

Quando o meu espaço deixa de ser “meu”, e passa a ser “nosso”, a situação melhora. Quando o “nosso espaço”, passa a ser “o espaço de Jesus”- “um lugar para a glória de Deus” [mesmo com muitas caixas e aparente desordem] – a redenção chegou.

Como o calvinismo pode salvar seu casamento

Também publicado no 5calvinistas

O título do post engana. Não se trata de um artigo para pessoas com casamento em crise – embora possa ser aplicado nesse contexto. Não tenta descrever o calvinismo como um método de “terapia conjugal”, mas descreve elementos do pensamento reformado que possibilitam uma vida a dois mais saudável.

Estou às vésperas do casamento – exatamente a 9 dias dele. E por isso é natural que minha mente esteja voltada para o assunto. Minhas leituras também.

Enquanto leio e reflito sobre os autores reformados que escrevem sobre o casamento e a vida em família, como C. J. Mahaney, Paul Tripp, Martyn Lloyd-Jones e Augustus Nicodemus Lopes, percebo que existe uma maneira distinta do calvinista observar o matrimônio. Que elementos, então, tornam o calvinismo melhor preparado para abordar o casamento e a vida em família? Listo alguns:

1. O calvinismo observa a realidade a partir da tríade Criação-Queda-Redenção

Existe um modo peculiar do pensamento reformado encarar a realidade. Agostinho, Calvino, Kuyper, Herman Dooyeweerd e Francis Schaeffer são exemplos de uma linhagem calvinista que produziu bastante a partir desse modo de perceber o mundo e a história. Por meio do pensamento deles, somos confrontados com uma visão integrada e completa dos fenômenos – obviamente, não perfeita. Em vez de um ferramentário dicotômico (ao estilo matéria x forma, ou natureza x graça), o pensamento calvinista lida com o casamento usando instrumentos adequados – percebe que o homem foi criado sem pecado, e o casamento foi instituído ainda em um tempo de pureza e plenitude. Compreende que o homem pecou, e os efeitos do pecado foram cósmicos – por isso o casamento apresenta lutas e dificuldades. Crê que existe redenção na obra de Jesus, que restaura o homem como um todo, resgatando o significado do casamento, o amor, e as virtudes que possibilitam a vida a dois.

Sem fantasiar sobre a realidade, ou fugir da tentativa de compreendê-lo, o calvinista possui um quadro de referência que permite uma análise cautelosa e verdadeira das crises conjugais, bem como o conhecimento do “lugar” onde tais questões encontram luz e solução. [Na verdade é uma pessoa, não um lugar].

2. O calvinismo compreende a depravação do coração humano

Uma aborgadem comum de problemas conjugais tentará identificar “causas” em objetos ou circunstâncias. A TPM, o estresse, a roupa, a falta disso ou daquilo, será identificado como “o problema a ser resolvido”. Com tal diagnóstico, o tratamento será um mês de férias, a diminuição do ritmo de trabalho, a mudança de alguns hábitos, etc. Provavelmente algum resultado positivo será obtido nas primeiras semanas, mas logo se perceberá que o problema, se não retornou como antes, foi “realocado” para uma área próxima.

O calvinista compreende que o problema central no casamento não são as circunstâncias. Elas apenas criam ocasiões para transbordar o que está no coração humano. Assim, o foco do tratamento deve ser o coração.

A antropologia reformada permite compreender a questão central que direciona todos os outros problemas surgidos no contexto do casamento – o pecado no coração do homem. No calvinismo existe um diagnóstico correto, o que permite o tratamento devido.

Como reformado, eu deveria reconhecer que o problema no meu casamento é o meu coração – sou eu.

3. O calvinismo enfatiza a soberania e providência de Deus

Enquanto outras correntes do cenário cristão buscam salvaguardar o livre-arbítrio humano, e assim tentam limitar pelo menos um pouco a atuação Divina, o calvinismo proclama, sem reservas, o governo absoluto de Deus sobre todas as coisas.

Nada surpreende o Senhor, nada foge de Seus decretos. Nada frustra os Seus planos e nada (nem ninguém) resiste à Sua vontade. Deus é soberano. Perfeita e plenamente Senhor sobre os céus e a terra, bem como sobre todos os que neles habitam. O Seu governo se estende do elemento mais simples ao mais complexo, da situação mais singela à mais difícil.

No contexto do casamento, a fé na soberania e providência de Deus traz conforto e segurança. As piores lutas não estão fora do controle do Senhor, e não passam despercebidas por Ele. As maiores alegrias também são desfrutadas a partir do reconhecimento de que há um “dedo” Divino nisso tudo.

A fé na soberania de Deus nos dá o maior de todos os recursos na luta contra o pecado da ansiedade – o olhar para o Senhor de tudo, e clamar a Ele. Não há luta que Ele não possa resolver.

4. O calvinismo ressalta o propósito da existência humana: a glória de Deus

A máxima calvinista grita alto: “Soli Deo Gloria!”. O Catecismo Maior de Westminster responde: “o fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. Está cristalizada na tradição reformada a noção da glória de Deus como o fator que dirige a vida humana. Ecoando o apóstolo Paulo, os reformados dizem que as coisas são feitas “para o louvor da Sua glória” (Ef.1.12), e que devemos “fazer tudo para a glória de Deus” (1Co.10.31).

Na vida conjugal, tal noção indica que o casamento é mais sobre Deus e Sua glória do que sobre a união de duas pessoas. O matrimônio é melhor vivido quando a sua Teorreferência é deliberada e contínua. Deus é o centro. A Ele a glória.

Isso significa que, no conflito de opiniões, a busca de satisfação pessoal – como se a minha glória fosse o mais importante – deve ser colocada em segundo plano, diante da tentativa de glorificar a Deus na resolução de conflitos e na tomada de decisões. Obviamente, como o coração do homem está comprometido, várias serão as vezes em que os calvinistas não cumprirão este propósito. Mas eles têm um alvo, uma confissão. Eles caminham para isso, e por isso lutam.

O credo calvinista reserva a Deus o lugar mais importante na vida a dois. Ninguém mais é tão relevante, nem os noivos, nem os familiares, nem os filhos. Ninguém além do Senhor.

Ad infinitum (?)

Cada um dos pontos do calvinismo, ou dos solas, ou dos símbolos de fé, poderia gerar um elemento que distingue o calvinismo e possui aplicações para o casamento. Alguns argumentarão aqui que muitos dos princípios que destaquei são partilhados tanto por calvinistas, quanto por não-calvinistas. Eu não criaria confusão com isso. Posso concordar que alguns dos pontos mencionados são, de fato, abraçados por irmãos não-reformados. A questão é que, fora do conjunto de pressupostos do pensamento calvinista, esses pontos estão soltos e mal explicados. Fora do contexto no qual eles são integrados e fazem sentido, perdem força – embora ainda tenham alguma.

Por isso penso ser o calvinismo distinto no casamento. Ele pode salvar a vida a dois, na medida em que trabalha com pressupostos e princípios fundamentais para promover a humildade no trato com o outro, o reconhecimento da incapacidade pessoal, a dependência da ação Divina, e o objetivo correto de se unir eternamente a alguém.

Soli Deo Gloria.

O que penso e sinto às vésperas do casamento

 [trecho do artigo “Um 2011…diferente“, publicado no BJC. Para ler o artigo integral, clique aqui]

2. A mudança de estado civil
Comecei 2010 como solteiro. Começo 2011 a caminho do altar – ainda em Janeiro celebrarei o matrimônio com a blogueira do IvoneTirinhas, do lado de quem edito o EuCaso.com.

Obtendo habilitação para casar

Mudar de estado civil – de solteiro para casado – é entrar em um novo universo, cujas formas apenas foram vislumbradas de longe, no namoro e noivado. Creio, evidentemente, que a semente do casamento está no namoro, de modo que aquele é a elevação deste à última potência. Mas ainda assim, e considerando um relacionamento vivido a aproximadamente 2028 Km de distância, a realidade do casamento e da convivência revela aspectos até então inexplorados – sejam ruins, ou bons.
Finalmente estaremos na mesma cidade. Mais do que isso: finalmente estaremos na mesma casa (apartamento, para ser mais exato).
Se você deseja entender um pouco da minha sensação enquanto penso sobre tal mudança, basta pensar que será também desafiador conviver tão de perto – e para sempre – com alguém, mas finalmente poderei ver o rosto por trás das entonações de voz, as lágrimas escondidas sob o som do choro, o sorriso que o insensível(!) celular me esconde, e o perfume que a distância faz questão de dissipar.